Ricardo Martins 3º Dan (Aikido Tradicional)

CREF 00482-P/RJ, Grau Prêto em MuayThai e KickBoxing, Treinador de Boxe, CrossFit – L1 Trainer, Coach especializado em Treinamento Físico Funcional e Pilates

Não existe um topo da montanha.

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Montanhas

Não existe um topo da montanha.

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Entrevista conduzida por Waylon Lewis, Editor Chefe da Revista Elephant.
Tradução – Jaqueline Sá Freire (Hikari Dojo – Brasil Aikikai – RJ)
Revisão – Ricardo Martins
Fotos por Tom Henwood.

http://www.boulderaikikai.org

Uma entrevista com Hiroshi Ikeda shihan, Instrutor Chefe do Boulder Aikikai em Boulder, Colorado, EUA
* Reimpresso com a permissão da Elephant Magazine, edição da primavera de 2005.

Hiroshi Ikeda

Hiroshi Ikeda Shihan

Introdução – Eu vim para o Colorado três anos atrás para participar do programa MFA na Naropa University e para viver nas Rockies (leia-se: esquiar). Mas, a verdadeira razão pela qual eu deixei minha adorada terra natal, a Filadélfia – foi a chance de ser jogado para todos os lados como uma boneca de pano por um dos mestres do Aikido, Hiroshi Ikeda Sensei.

Em Japonês, Aikido literalmente significa “o caminho da harmonia com a energia”. Apos testemunhar a carnificina da segunda Guerra Mundial, o fundador do Aikido, Morihei Ueshiba (O-Sensei) disse que esta arte marcial deve “cultivar um espírito de proteção amorosa por todas as coisas”.

A manifestação deste princípio é o “musubi” ou união com uma intenção ou ação agressiva, para, então neutralizar o conflito.
Na aula de Aikido, os alunos aprendem de forma cooperativa, cada um praticando o papel de quem arremessa (nage) e quem é arremessado (uke). Idéias tolas de vitória e derrota eventualmente se dissolvem.

Hiroshi Ikeda cultivou este espírito desde que abriu o Boulder Aikikai, em 1980. Sua filosofia é despertar e abrir a mente melhorando o instrumento que é o corpo.

Seu método é treinar, treinar, treinar. Ele gerencia uma companhia de suprimentos de artes marciais de dia, dá aulas de noite, dá seminários de Aikido por todo o mundo nos finais de semana – tudo isso enquanto cuida de sua amorosa família com sua esposa e parceira de negócios, Ginger Ikeda.

Waylon H. Lewis, pela elephant: Antes de mais nada, obrigado. Para começar, as primeiras coisas primeiro. Como você veio parar no Colorado?

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Morihei Ueshiba O´Sensei

Hiroshi Ikeda Sensei: Ginger e eu viemos para cá em ferias de inverno, da Florida, onde fui criado por meu professor. Eu costumava praticar ski no Japão. E em Boulder, quando você passeia por aqui, pode ver muito mais pessoas jovens se comparar com a Florida. Lá é um lugar para aposentados. Sem jovens.

Ele: Muitas pessoas jovens a quem você poderia dar aulas.

Sensei: A geração mais nova é importante. Além disso, eu sou do Japão. Eu preciso de 4 estações no lugar de duas estações.

Iaido

Iaido

Ele: Então, as artes marciais são apenas uma forma de treinamento de combate, ou há algum aspecto de meditação ou contemplativo?

Sensei: As artes marciais têm duas faces. Há muitos, muitos anos atrás, no século XVI no Japão, havia guerra o tempo todo, portanto as artes marciais eram usadas assim. assim, uma face é matar outras pessoas. A outra face é ajudar as pessoas. É como a katana [espada longa] na escola Japonesa. Satsujinken é a “espada que mata” e katsujinken é a “espada que ajuda as pessoas”. Então, depende de como você a usa.

kendo

Kendo

Ginger Ikeda: Lembro de como você falava sobre ter a escolha: pode ser uma espada da morte ou uma espada da vida. Você pode escolher não usá-la. Certo?

Sensei: São as pessoas, as pessoas.

Hiroshi Ikeda 1

Hiroshi Ikeda preparando um Irimi Nague

Ginger: Quem quer que esteja por trás da espada.

Sensei: Hai. Uma faca é uma arma. Você pode usá-la para matar ou para preparar uma bela refeição.

Ele: Então, como exatamente isso ajuda uma pessoa que está treinando para socar ou bloquear alguém? Ou seja, se você não treina 100 pessoas em seu dojo para saírem dando surras em outras pessoas. Você as está treinando para se tornarem pessoas melhores?

Judo

Judo

Sensei: Judo, Karate e Kendo possuem torneios. Antes do torneio, vocês são amigos. Mas nos torneios, ambos os lados pensam: “eu quero vencer”. Pequenos conflitos surgem. O Aikido não tem competições. Então, basicamente, ele não tem uma idéia competitiva: “Eu quero vencê-lo”; a idéia é compartilhar um com o outro.

Ele: Antes desta conversa, Tom estava me dizendo que você tem fortes raízes na sua tradição, e por isso você é capaz de se abrir para outras tradições. Agora você mencionou o Karate. Você está convidando Kenji Ushiro, um mestre de Karate, para seu “Summer camp”. Ela está participando de competições, certo?

Karate

Karate

Sensei: Na universidade ele começou a lutar Karate. E então ele conheceu Nikichi Zaha Sensei e mudou do Karate para bater nas pessoas para o Karate para ajudar as pessoas. Qualquer arte marcial pode ser uma técnica para matar. Mas, elas também podem ajudar. Ambas as coisas.

Ele: Você leu a Arte da Guerra? Sun-Tsu? Ele era um antigo general Chinês. O texto inteiro é sobre como vencer uma guerra. Mas uma das linhas mais famosas diz “A melhor forma de se obter a vitória é não ter que lutar”.

Sensei: Aikido é quando você aprende a buscar formas de não lutar.

Ele: Muitas pessoas estudam artes marciais para que, ao se depararem com uma situação complicada em um bar, possam se proteger e parar o que estiver acontecendo.

Sumo

Sumo

Tom Henwood: Sim. [risadas]. É ser capaz de se acalmar e perceber o que está acontecendo e dizer: “Eu não preciso disso. Isso não é importante” – percebendo que posso ir para casa e ir dormir. [Risadas]

Ginger: No livro Thick Face, Black Heart há uma história sobre um guerreiro que é atormentado por vagabundos armados. Eles o obrigaram a rastejar. E ele o fez. Depois, as pessoas lhe perguntaram, “Porque você não simplesmente os matou?” e ele respondeu “Não valia a pena”.

Sete Samurais

Cena do Filme Sete Samurais de Akira Kurosawa

Ele: Há uma cena em um filme de Kurosawa – Sete Samurais – em que o velho mestre …

Sensei: Ele tem a cabeça raspada.

Ele: Isso! Ele está observando uma luta que começou, e um dos homens está dando pulos e gritando, fazendo todos os tipos de gestos dramáticos – e o outro está apenas lá parado, esperando. O velho mestre diz “Dá para saber o que vai acontecer. Esta luta deve parar”. Antes desta entrevista estávamos falando sobre Shibata Sensei [mestre de cerimônias do Imperador do Japão que se mudou para o Colorado para ensinar a arte Zen do arco e flecha, o Kyudo, para os alunos de Budismo de Chögyam Trungpa Rinpoche]. Ao estudar com ele quando era criança, ele sempre criticava o “Kyudo esportivo”. Ele dizia, “Kyudo não é um esporte, é uma meditação andando”. Então – em oposição às formas competitivas de artes marciais – você vê o Aikido como uma meditação em movimento?

Kyudo

Kyudo

Sensei: Há uma maneira de se dizer isso. No Kyudo, o objetivo não é acertar um alvo como no arco-e-flecha Olímpico. O ponto principal é como você atira. Há muito tempo atrás no Japão, o mestre me ensinou, “Se sua mente, seu espírito e seu corpo não estiverem unidos, você não pode atirar”. Você pode não abrir a mão, que naturalmente se abre ao soltar a flecha. O Kyudo Japonês é completamente mental. Ele é feito de movimentos formais. Antes de fazer alguma coisa, você deve se acalmar. Este é o princípio. O Judo, o Kendo se transformaram em esportes. Para vencer. Assim, eles perdem o aspecto meditativo. O Aikido não tem vitória nem derrota. Então é mais fácil meditar durante o tempo de prática.

Ele: Isso é interessante, originalmente a “competição” seria medir o quanto a pessoa tinha seu corpo e mente conectados, o quanto eles estariam estáveis, o quanto suas mentes seriam claras.

Sensei: Sim, a competição não é ruim. Mas para os principiantes, é difícil fazer o corpo, a mente e o espírito se unirem. Se você pratica, pratica, pratica… depois eles podem estar unidos.

Zen

Zen

Ele: A tradição samurai tinha alguma conexão com o Zen Budismo e o Xintoísmo. Por quê?  Os samurais achavam que a meditação seria útil para eles.

Sensei: As pessoas estavam lutando umas com as outras. Se você está chateado com alguma coisa, não é capaz de fazer um julgamento correto. É melhor que você esteja calmo. Então, você terá uma idéia, um bom julgamento, boas palavras fluirão. Se você estiver chateado, não conseguirá isso. O Samurai precisava estar com a mente neutra e não chateado: agora feliz, agora triste. As pessoas praticavam o Zen ou o arranjo floral ou a cerimônia do chá. Miyamoto Musashi, um famoso espadachim, praticava caligrafia com tinta sumi para se acalmar, para ficar neutro.

Amitabha

Buda

Ele: E poesia – eles também praticavam haiku. Isso é fantástico. Em uma palestra que você fez sobre Kyudo, você disse que “Quando tudo se conecta – o individuo, a arma e o alvo – a flecha se solta sozinha e voa para o centro do alvo”. De volta ao fato de que as competições não são necessariamente más, o ponto principal de ser bem sucedido no combate é estar calmo, centrado, neutro. Assim, de um ponto de vista prático, como manter esta calma na vida diária? É a mesma coisa… você é muito atarefado, você tem filhos, viaja, dá muitas aulas – você tem muitas responsabilidades.

Sensei: Na minha situação, eu tenho “palcos” diferentes. Eu tenho a casa, os negócios, o dojo. Eu vou a seminários, tenho que falar com muitas pessoas – muitos palcos diferentes. Então, não carrego os assuntos do trabalho para os seminários. E se o trabalho estiver com problemas e isso está me incomodando? Não. Se vou a um seminário, não levo isso comigo. Eu deixo o resto para trás. Assim, ao falar com as pessoas durante um seminário, minha mente está completamente lá. Não carregue as coisas com você. No inicio você tem que pensar, isso pode não vir naturalmente, você tem que trabalhar nisso.

Cerimônia do Chá

Cerimônia do Chá

Ele: Praticar separar suas atividades. … entendo. Então, após um longo dia, se ainda estiver pensando no trabalho, devo praticar esquecer …

Sensei: Apenas mudar. É claro que eu penso em outras coisas também, eu me preocupo, mas não posso estar nesse outro lugar. Então eu me desligo disso.

Ele: Antes desta entrevista, Ginger mencionou nossa conversa na ultima edição com Satish Kumar, um cavalheiro Indiano que vive na Inglaterra. E ele dizia o oposto: “Eu trabalho com minha família, na minha casa, e depois, se for um dia bonito, eu saio e cuido do jardim”. Entende? Ele mistura tudo. Mas em algum ponto parece semelhante… ambos estão fazendo exatamente o que surge para ser feito. Você considera importante separar seu trabalho e sua vida em casa?

Bonsai

Bonsai

Sensei: Acho que sim, para mim. Eu vou ao centro [dojo] e lá têm 80, 90 pessoas. Eu tenho que conviver com elas, conversar com diferentes tipos de pessoas, durante o horário das aulas e depois delas. Se minha mente não está tranqüila, as pessoas podem perceber. Eu não desejo passar meus problemas para outras pessoas. Este problema é meu. Algumas pessoas vêm ao dojo muito zangadas, e essa agressividade se mostra durante a prática. E algumas pessoas machucam outras. Isso é errado.

Ele: Sempre que eu e Tom discordamos sobre a revista, ele me ataca. [Risadas]

Sensei: E é por isso que estou falando sobre a neutralidade. Eu pratico artes marciais há muitos anos. Eu possuo armas: minhas mãos, meu corpo. Se estiver chateado, posso atacar facilmente. Então não posso fazer isso às pessoas. E se eu tiver um problema? Eu não o carrego comigo.

Ginger: Quando eu li o artigo do Satish, pensei, “É assim que nós somos. Não há separação porque fazíamos todo o nosso trabalho no Bu Jin [a empresa de equipamentos e roupas para artes marciais do Sensei] em casa quando começamos. E não parece haver uma separação. Eu concordo com Satish: é tudo uma coisa só. Nós andávamos com o carrinho do bebê e voltávamos para preparar pedidos de venda… e depois íamos para o dojo. Mas, ser neutro é ser capaz de separar as coisas, quando há necessidade. Mas, de qualquer forma, a nossa forma de ser era sempre viver o Aikido, em casa e em qualquer lugar.

Sushiman

Sushiman

Ele: Este é um ponto importante. O Sensei está falando sobre um nível mais sutil. Mentalmente, você mantém o shoshin, ou mente de principiante, e mantém a mente vazia, deixando tudo para trás. E se consegue fazer isso, tudo na sua vida pode ser misturado, trabalho, diversão e família.

Ginger: Se você conseguir ligar e desligar. Porque, para um samurai, eles tinham que estar sempre prontos para que alguém pulasse dos arbustos. [Risadas]

Tom: A vida moderna é assim – estamos sempre sendo atacados por uma coisa ou outra. São tantas coisas, vindo de todas as direções.

Ginger: Estou curiosa se o treinamento do Aikido como uma meditação em ação lhe deu condições para fazer isso.

Sensei: Nestes 25 anos desde que me mudei da Florida para Boulder, nossa vida tem sido bastante agitada. Muitas coisas diferentes, estamos construindo um dojo, construindo um negócio, e arrumando nossa primeira casa.

Ginger: Tivemos um filho …

Sensei: Trabalhamos o tempo todo. E, todo esse trabalho torna fácil fazer separações. Eu sou tão ocupado que não posso carregar meus problemas para os outros lugares. Eu tenho que “cortar”. Automaticamente, treinei isso.

Ele: Isso é uma coisa com a qual tenho dificuldade. Eu trabalho tão duro com essa revista. É um trabalho muito difícil, como empurrar uma rocha montanha acima, e eu fico cansado. Eu perco o foco. E não quero mais fazer isso. Estou tendo que aprender a separar as coisas e ter uma mente de principiante. Ou, então minha mente sempre estará cheia.

Sensei: Exatamente. A meditação é uma maravilha se você precisa se acalmar. Isso é importante para essa vida. Não devemos estar sempre ocupados, ocupados, ocupados, exceto pela hora de dormir. Podemos estar despertos, porém calmos. Não é necessário subir às montanhas ou ir a algum outro lugar. É claro que se temos a oportunidade de ir a um centro Zen para treinar, isso é muito bom. Mas, até cinco minutos para que você seja apenas você mesmo, para estar em paz, isso também ajuda. Meditação parece ser fácil, mas é difícil. Você está lá, sentado, mas sempre tem alguma coisa vindo à sua mente. Nunca em paz. As pessoas vão para as montanhas, para lugares calmos, e então podem treinar. Em lugares silenciosos, você pode ficar calmo. Mas, se você for a um lugar agitado, você não pode criar sua calma? Isso não está certo. É importante que mesmo em Manhattan, em um aeroporto – qualquer lugar agitado – você possa aquietar sua mente.

Ele: é este o tipo de meditação que realmente o prepara para a vida, porque a vida não é calma.

Sensei: é por isso que eu pratico Aikido há 38 anos. Em cada sessão de prática, há barulhos. Como posso me isolar das distrações? Meditação com movimento. Temos que tentar. Isso não vem naturalmente. “Ok, quero me acalmar, foco.” Foi isso o que eu fiz por muitos, muitos anos. Agora consigo fazer. Se eu estou em um aeroporto, em um avião – tanto barulho – mas eu consigo dormir. Pessoas falando? Eu consigo isolar as distrações, completamente.

Ginger: O que pode causar grandes problemas … [Risadas]

Sensei: Às vezes eu fico surdo! Mas eu preciso criar a calma se não tiver tempo para ir a um lugar calmo. Eu viajo 200 dias por ano.

Tom: Não consigo imaginar tantas viagens.

Sensei: Eu sou um professor. Se eu der aula da mesma forma por muitos anos, se você faz isso por muitos anos, você se cansa. Então, tenho que me fazer gostar disso. Ensinar de formas diferentes.

Ele: E provavelmente os alunos aprendem melhor assim, porque você está renovado, aberto.

Sensei: Eu quero que as pessoas se divirtam e aprendam. Quando eu estava na escola no Japão, tínhamos esse professor de Inglês muito sério. Tudo era tão certinho, e eu ficava chateado. E então o novo professor chegou, recém graduado da universidade. Ele ensinava o que estava no livro, mas ensinava também um monte de coisas interessantes.

Ele: Então, você ficou interessado.

Sensei: As pessoas ficaram muito felizes. E eu aprendi com isso. Quando vou a seminários, tento fazer com que as pessoas não fiquem apenas praticando as técnicas repetidamente. Porque todos já conhecem os movimentos.

Ele: Você está falando sobre shoshin.

Sensei: A mente de principiante. Uma tela em branco – isso é shoshin. Mas a cada dia, se a pessoa a pinta, logo ela estará completamente coberta. Sem lugar para colocar mais tinta. Mas se você consegue todos os dias ter uma tela em branco…. Pode colocar lá todas as cores.

Ikebana

Ikebana

Ele: Você mencionou ikebana, arranjo floral Japonês. Eles usam ramos dramáticos e flores, mas uma grande parte disso é deixar espaço vazio.

Sensei: O arranjo floral tem diferentes escolas com muitos estilos diferentes. Minha irmã pratica o Sogetsu. Eles sempre deixam espaços. Às vezes, outros estilos não têm espaços em seus arranjos.

Ele: Eu estudei ikebana quando era criança. Sogetsu. Trungpa Rinpoche acreditava que esta forma incorporava a forma e o espaço, e isso é outra forma de meditação em ação.

Sensei: Se você coloca uma flor no espaço, isso é shoshin. Mente vazia, espaço vazio – e então você pode fazer tudo o que quiser.

Ele: Uma vez você disse: “O Sensei nos instruiu a treinar com alegria. Era claro que ele compreendia a natureza do aprendizado”. Nesse momento você estava falando sobre shoshin. Então, como o vazio e a alegria se conectam?

Ikebana 1

Ikebana

Sensei: Liberdade. O vazio é a tela em branco. Você pode colocar qualquer cor – isso é a liberdade.

Ele: Ao invés de ser tudo negro e claustrofóbico, você pode alegremente pintar qualquer coisa?

Sensei: O que você quiser!

Tom: Quando você faz demonstrações, você gosta da espontaneidade – sem ataques coreografados. Você recebe o que vem. Isso se conecta com a alegria e o vazio?

Sensei: Sim. Mas todas as artes marciais também têm passos e movimentos básicos. Como o Kyudo. Primeiro você tem que ter uma base. Você não pode ter liberdade o tempo todo. Você deve praticar os movimentos básicos por muitos e muitos anos. Depois você basicamente usa apenas sua mente. Sua mente se move. O inicio é difícil. Tudo é sempre o mesmo. Como cortar biscoitos, stamp, stamp, stamp. Então, a partir daí, seus movimentos se tornam líquidos – qualquer movimento é possível. Você deve compreender os fundamentos. É como fazer uma casa maravilhosa. Então, quando chamo as pessoas para me atacarem e respondo aos ataques eles são água, eu sou água, nós estamos conectados. Shibata Sensei – seus movimentos são naturais. Ele não os faz. Mas os principiantes devem copiar primeiro e depois esta arte se torna realmente sua. É essa a razão para praticar, praticar, praticar. A mente compreende e então flui através do corpo. Fundamentos primeiro. E depois você pode ter toda a liberdade que quiser.

Zazen

Meditação

Ele: Kobun Chino Roshi, ou o professor Budista Sakyong Mipham Rinpoche, quando praticam Kyudo – eles o estudaram por muitos anos – ao invés de fazerem todos os movimentos formais que eu pratico, eles apenas pegam o Yumi [arco] e ya [flecha] e… é tão natural… eles simplesmente o fazem. Eu sempre ficava pensando, “Porque eles não fazem todas as formas?”. Você disse em uma palestra, “O Vazio é frequentemente interpretado como uma mente vazia ou não pensar sobre nada. Mas uma interpretação mais exata é estar em um estado neutro, sem noções preconcebidas, planos, opiniões ou emoções. Acho que você pode perceber que existe uma diferença sutil”. Eu gostei disso. Na meditação, as pessoas sempre pensam que você deve esvaziar a mente, ou ir para o alto de uma montanha, ou se refugiar em um spa e relaxar. Mas na verdade, a meditação está funcionando com seus pensamentos. Você não está apenas tentando escapar.

Sensei: Se você se esvaziar por completo, estará morto. Encha um copo de água, e você não poderá colocar mais água nele. Então, sempre tenha a mente com um espaço vazio, para absorver coisas novas. Algumas pessoas dizem: “Não quero mais ouvir você. Eu já entendi”. Isso é uma mente completamente cheia. Ela não pode mais crescer. Somos seres humanos, até o momento que morremos, precisamos crescer. Sempre. As pessoas vão ao topo das montanhas? As montanhas nunca têm topos.

Montanha

Yama – Montanha

Ele: A vida não tem um topo da montanha.

Sensei: Nada de topo. Sempre existe um topo a sua frente. Você chega no topo e vê que do outro lado tem uma montanha ainda maior. Então você não pode dizer, “Ok, consegui. Estou no topo”. Quando você chegar no topo da montanha será o fim da sua vida. Este é o topo da sua montanha. Então temos que ter espaços vazios na mente, e sempre aprender.

Ele: Você também disse que para conquistar a paz, ou o vazio, paradoxicalmente você tem que antes encher sua mente com conhecimento, você deve estar aberto e receber tudo – e que isso é a ausência do ego. Mudando de assunto, quem foi seu professor?

Mitsugui Saotome

Mitsugui Saotome Shihan em Kamae

Sensei: Mitsugi Saotome Sensei. Ele estudou com O Sensei, o fundador do aikido [Saotome Sensei viveu com Morihei Ueshiba por 15 anos, até a morte de Ueshiba em 1969].

Ele: E agora você terá um “Summer camp” pelo seu 25o aniversário aqui com seus alunos.

Sensei: Umas pessoas me acompanharam. E encontramos Richard Heckler. Ele estava dando aulas na Naropa [Universidade] naquele tempo.

Ginger: E Wendy Palmer. Eles estavam dando um curso de verão de Aikido na Europa em 1980. Nós nos conhecemos, e algumas pessoas que estavam fazendo o curso com eles começaram a fazer nossas aulas.

Ele: Seu website diz que a forma mais importante da etiqueta Japonesa é a reverência. É algo com que cresci na tradição budista. Fale sobre isso. Com isso se está dizendo para a pessoa para quem você faz a reverência, “Você é superior?”.

kanji

Caligrafia

Sensei: Não é diferente de apertar as mãos. Você pode apertar as mãos de uma pessoa sem sentimentos. Mas, para ser honesto, ao apertar as mãos de uma pessoa, você pode sentir os sentimentos dela. A reverência é a mesma coisa. Reverência ou apertar as mãos. Deve ser sincero, deve ter espírito, deve ter sentimento. A reverência não é só um movimento. Ela vem do seu coração. Assim, antes de praticar, nós fazemos a reverência uns para os outros e para deus, basicamente: kami. Mas é um tipo diferente de deus que as pessoas pensam.

Saotome-Sensei  & Dave-Goldberg

Mitsugui Saotome Shihan aplicando Ikkyo

Ele: Claro. Não é como Deus no céu… É uma energia? [Sensei concorda] É como Fudo? [ele gesticula para o santuário Japonês do Sensei que tem uma estátua de um ‘deus protetor’ zangado]

Sensei: O deus das artes Marciais. Fu é “não”; Do é “movimento”. Não se move. Espírito calmo. Você falou sobre mente vazia? É exatamente isso. Ele parece zangado é feroz, mas ele é calmo e forte.

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  • Nisso eu acredito…

    Bu Jin Design

    Nisso eu acredito…
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    http://hikari1.multiply.com/journal/item/35/35

    Escrito por Dan Rubin  em Junho de 2007
    Tradução – Jaqueline Sá Freire (Brazil Aikikai – Hikari Dojo – Rio de Janeiro)
    Revisão – Ricardo Martins

    Eu acredito que sou muito bom no Aikidô. Estou fazendo um enorme progresso em minhas habilidades físicas e em minha compreensão dos princípios e conceitos.  Com toda a modéstia, eu espero um dia ser “shihan”. É por isso que eu sei que hoje é domingo.

    Porque, na segunda-feira, eu acredito que sou um fracasso total no Aikidô. Minhas habilidades são uma droga e a cada dia eu entendo menos que no dia anterior.  Estou perdendo meu tempo e desperdiçando o tempo do meu colega. Eu devia ir praticar “Tae Bo”.

    Terça-feira é um pouco melhor. É verdade que estou confuso, mas eu acredito que consegui entender uma pequena parte do que o “sensei” tem nos dito nos últimos tantos anos, isso é encorajador e me assegura que estou fazendo progressos, mesmo que lentamente.

    Porque existem as quartas-feiras? Uma semana de seis dias não seria mais eficiente? Hoje eu li uns artigos muito bons sobre Aikidô e vi uns vídeos ótimos no “YouTube”. Porque todos são muito mais espertos, mais cheios de sabedoria e mais habilidosos que eu? Estou com medo de voltar para o “dojo”, porque acredito que os principiantes que entraram no mês passado já são bem melhores que eu.

    É quinta-feira. A aula dessa noite foi ótima. Um monte de alunos no tatame, um monte de energia. Eu acredito que o mais importante do Aikidô é realmente a camaradagem no “dojo”. Eu amo o Aikidô.

    … Todos estão cansados e estão saindo para beber algo ou para jantar depois da aula. Eu acredito que meus colegas finalmente me tratam com o respeito que eu mereço. Oh-oh! Lá vem aquele cara da faculdade.

    Um momento atrás uma mulher me arremessou com tanta força que fiquei vesgo. “Você está bem?” ela perguntou. Ela sempre me pergunta isso depois de me arremessar com muita força, e eu acredito que o fato de ela se preocupar me faz me sentir melhor. Ou, isso só faz com que ela se sinta melhor? E porque ela está com aquele sorrisinho no rosto? Que dia é hoje? Eu odeio Aikidô. Deve ser sábado.

    Domingo, segunda, a semana inteira…

    Reverência, sentado de joelhos, rolando errado.

    Torcendo pulsos e sendo torcido.

    Juntas doendo porque eu resisto.

    O arremesso do nague e ele me arremessa com mais força.

    Agora é minha vez. Mas,  e daí?

    Eu devia entrar para um time onde todos sofrem juntos.

    Ler muito sobre a história de “baseball”.

    Jogar na rua, pegar um bronzeado.

    Liberar o garoto que há em mim.

    A minha decisão é abandonar o Aikidô.

    Assim que eu descobrir:

    - Como fazer o contato e me unificar.

    - E, como fazer a entrada e porque eu…

    Não estou conectado com meu centro.

    Logo, um dia, eu serei capaz de solucionar todos esses mistérios.

    Não posso evitar.  Eu acredito.

    Dan Rubin, “Sandan”, treina regularmente no “Boulder Aikikai” em Boulder, Colorado.
    Após trinta e quatro anos no Departamento de Policia de Denver, ele se aposentou recentemente como Capitão.
    No site “Bujin” você pode encontrar outros ensaios de Dan Rubin.

    http://hikari1.multiply.com/journal/item/35/35
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    "A aceitação da dor é o primeiro passo para suportá-la, caso contrário, o pessimismo, a impaciência e a intolerância, poderá transformá-la num fardo alem de suas forças." Ivan Teorilang

    Frase do Dia:

    Está se sentindo desorientado (seu "aiki" não está rolando), não sabe o caminho (DO) que deve seguir, tem problemas existenciais, precisa de aconselhamento. Percebe que uma "intervenção", no seu caso, é necessária porque já identifica problemas somáticos, psíquicos ou psicossomáticos.
    Não procure uma arte marcial, yoga ou atividade física. Nenhum "sensei", nenhum "shihan" por mais "graduado", experiente, maduro e inteligente que esta "divindade" seja vai te ajudar. Filiações não funcionarão, tampouco... Não perca seu tempo com guru, sensei, shidoin, shihan, Krus, do, jutsu etc... Você precisa de um profissional competente e devidamente habilitado para te ajudar no restabelecimento de seu bem-estar e de sua saúde.

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    Muito obrigado

    Ricardo Martins
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