Vortex Negro – Uma entrevista com Sensei Yoshimitsu Yamada 8º Dan, Shihan e o USAF Chairman

Tradução para a Língua Inglesa: Masako Nakatsugawa 2004.
Tradução para a Língua Portuguesa: Jaqueline Sá Freire (Hikari Dojo – Rio de Janeiro)
Revisão: Ricardo Martins

http://www.aikidoonline.com/articles/shihankai_articles/yamada/Yamada_Black_Vortex.php

Nota do Editor: Esta entrevista foi inicialmente publicada em Aikido East, uma newsletter da USAF Eastern Region.

Yoshimitsu Yamada Shihan 8º Dan

Você pode nos contar o que o levou a começar no Aikido?

Quando eu era criança, antes do Aikido ser aberto ao público, eu ouvi meu tio, Tadashi Abe, falar sobre Aikido. Eu cheguei a ter o privilégio de assistir uma demonstração de O-Sensei na residência de uma pessoa. Ele fez a demonstração vestido com um kimono negro. Parecia que eu estava vendo um vortex negro girando. Desde então eu quis fazer Aikido. E, ao entrar para a Universidade, Kisshomaru Sensei (o Doshu) gentilmente me aceitou como uchideshi. Assim, no meu caso, meu primeiro dia no Aikido foi meu primeiro dia como uchideshi.

No meu primeiro dia, cheguei no dojo com meus pertences em um baú de bambu. Kisshomaru Sensei me disse que guardasse o baú. Eu encontrei um armário e o guardei lá. Mas, esse armário pertencia a Arikawa Sensei (Sadateru Arikawa Shihan)! Ao retornar naquela noite, ele disse “Quem colocou isso no meu armário?” E, jogou meu baú fora. Eu fiquei muito triste e quase voltei para casa. Mas, Arikawa Sensei era um bom homem. E, sempre me tratou muito bem depois disso!

Eu tinha dezoito anos, talvez uns oito anos antes de ir para os EUA em 1964. Só o fato de ter a permissão para treinar me emocionava. Eu nunca pensei em ser um Aikidoista profissional no futuro. Ninguém pensaria em viver somente do Aikido naquela época. Isso pode ser um “clichê”. Mas, eram bons tempos. O dojo era um verdadeiro dojo tradicional, com tatami de verdade. Estruturas de madeira têm personalidade, não é? A prática era muito dura. Mas, eu era jovem. A energia que eu tinha devido ao basketball foi muito útil. É claro, o Aikido tem kansetsu waza (técnicas de juntas). Eu não estava preparado. Isso doía!

O´Sensei falando sobre o Universo

Você pode nos falar sobre a memória de O-Sensei?

Quando conheci O-Sensei, ele já tinha idade avançada e não tinha uma aparência amedrontadora. Ele era um homem velho, gentil, e bem humorado mesmo em suas aulas. De vez em quando eu tinha o privilégio de ser seu uke. E nessas vezes eu ficava tão tenso e fora de mim que só percebia quando já estava caído no tatami. Eu não sentia que estava sendo arremessado. Ao invés de me sentir fisicamente sendo jogado, eu me sentia como se tivesse sido carregado por um grande tufão. Naquela época, para dizer a verdade, os ensinamentos de O-Sensei estavam além da minha compreensão. É uma pena que eu não tinha o nível para entender o que ele dizia. Mesmo assim, não posso dizer que até agora tenha atingido aquele nível.

Qual foi a sua impressão de Kisshomaru Doshu?

Ele era uma pessoa séria e cortez. Para dizer a verdade, eu tinha a impressão de que ele devia ser reverenciado e mantido a uma distancia respeitosa. Devo dizer que só um homem de alto calibre deixaria jovens como nós vivendo no dojo. Naquela época, o dojo e a área em que vivia a família de O-Sensei não eram separados. A família de O-Sensei e os Uchideshi jantavam no mesmo lugar e na mesma hora. Aquela época era economicamente difícil não só no Aikikai. Mas, em todo o Japão do pós-guerra. Devia ser muito difícil para eles a vida conosco.

Kisshomaru Doshu nos dava aulas pela manhã e todos os uchideshi compareciam. É uma presunção minha dizer isso. Mas, as aulas de Kisshomaru Doshu eram despretensiosas, fieis ao básico e ortodoxas. Até hoje eu tento seguir seus ensinamentos em minhas aulas. Acredito que a individualidade e a personalidade no Aikido recente são louváveis. Mas, às vezes vejo umas técnicas muito estranhas. Se o uke for bom, ele pode cair como você quer. Mas, isso não escapa aos nossos olhos. Para nós a diferença é claramente evidente entre a técnica que é fiel ao que é básico. E, a técnica que apenas imita as outras.

Kisshomaru Ueshiba 2º Dooshu

Uma Experiência Inestimável

Você pode nos contar sobre como decidiu vir para Nova York?

Eu tinha o desejo de ir para um país estrangeiro. Eu amava música e ouvia jazz na estação de rádio das Forças de Ocupação Americanas no Japão. Eu não era um aluno muito bom na escola. Mas, meu inglês era bom o bastante. Então, fui ensinar Aikido em uma base americana enquanto estava no Japão, e fiz contato com alguns americanos. Eu tinha a opção, por intermédio das conexões de meu tio, de ir para a França. Mas, acabei vindo para Nova York porque eu falava inglês.

Bandeira Americana e a Estátua da Liberdade

Como era o Aikido visto em Nova York naquela época?

O Aikido era bastante popular na Costa Oeste. Mas, ainda estava começando na Costa Leste, como Nova York. Foi o momento em que o Aikido começou e chamar a atenção dos judokas. Quando eu vim para Nova York, eu podia contar o número de pessoas que estavam interessadas no Aikido: pessoas que não estavam satisfeitas com o judo, pessoas que consideravam o judo muito cansativo por causa da idade, pessoas que simpatizavam com a filosofia do Aikido, e mesmo pessoas que tinham estado no Japão para aprender o Aikido.

Naqueles dias, não havia vídeos. A mídia não se interessava. A única forma de apresentar o Aikido era através de demonstrações. Eu fiz tantas demonstrações que cheguei a odiar as palavras “Demonstração de Aikido”. Naquela época o karate estava florescendo nos EUA e havia um monte de competições. Os instrutores americanos de karate e os que tinham migrado para os EUA me ofereceram oportunidades para demonstrar o Aikido naquelas ocasiões. Eu fiz diversas demonstrações nas mais diferentes condições – até nas calçadas.

Ao olhar para trás, eu vejo que estes foram dias maravilhosos da minha juventude. É claro que houveram momentos difíceis. Muitas dificuldades financeiras. Mas, eu tive experiências que o dinheiro não pode comprar. Eu não hesitaria em fazer tudo novamente. Algumas coisas eu não pude fazer naquela época.

Talvez eu pudesse encontrar um direcionamento melhor. Se eu tivesse a mente de hoje e a experiência e a energia de minha juventude, isso seria fantástico. Infelizmente a vida não funciona assim e sempre é muito tarde quando você percebe. E, é por estar no ponto em que estou que posso dizer que faria tudo novamente.

Você já sentiu um abismo entre os EUA e o Japão ao ensinar o Aikido?

Basicamente é a mesma coisa, eu acho. Algumas pessoas praticam Aikido porque gostam das técnicas, alguns buscam o Aikido por sua espiritualidade. Uma coisa boa do Aikido é que muitas pessoas diferentes podem se unir. Eu nunca me sinto deslocado. Talvez seja por causa da minha adaptabilidade. Talvez seja a minha personalidade. Eu nunca me sentia um estrangeiro porque já conhecia americanos no Japão. Eu sentia que tanto os americanos quanto os japoneses são o mesmo tipo de ser humano. É claro que existem diferenças entre as duas culturas. Mas, isso não foi um obstáculo porque eu já sabia disso antes de vir para os EUA.

Quais são as dificuldades que você encontra ao ensinar a cultura japonesa?

Seria um absurdo se eu dissesse “eu vim para lhes ensinar a cultura japonesa. Então, vocês devem abandonar a Cultura Americana”. Os Americanos têm sua própria estrutura, como o espírito dos pioneiros, o que não é parte da Cultura Japonesa. Eu tenho que encontrar um meio termo porque ensinar uma cultura diferente se baseia na compreensão de cada ser humano. Essa é a minha visão sincera de como ensinar, nada mais. Talvez seja isso o que as pessoas sentiram ao aceitarem o Aikido e a mim.

Bandeira Japonesa

Acho que também eu me senti a vontade com as características da Nação Americana. Os Americanos são pessoas que amam a liberdade porque vieram para este país buscando um Novo Mundo. Se vocês insistissem em sua própria cultura e nas tradições de seu passado, não poderiam se unir para construir um novo pais. Eu realmente respeito os Estados Unidos da América porque as pessoas se unem acima das diferenças das religiões e raças. Em nosso dojo, alunos de muitos paises, como Judeus e Alemães, praticam juntos em paz… Isso é inacreditável. Em Nova York, se você insistir na “velha história”, você não pode viver. Você não consegue realizar nada.

Yamada Shihan em Ação

Você é sempre um APRENDIZ.

Você pode nos dizer qual é o Lema para a prática do Aikido?

Isso depende do seu nível; algumas pessoas estão perto da perfeição e outras precisam de instruções detalhadas e de um direcionamento especial. Eu não gosto de ensinar de uma forma fixa. Pois, existem tipos diferentes de movimentos que se adequam a tipos diferentes de corpos. Se ensino de forma detalhada e o aluno não gosta disso, ele não vai permanecer. Não é útil ensinar uma coisa que o aluno não gosta. É importante oferecer aos alunos um ambiente e um espírito que sejam agradáveis.

Você deve corrigí-los quando isso é necessário. Mas, alguns alunos ficam confusos ou não conseguem progredir se forem constantemente corrigidos. Depois que você segura uma pessoa cega pela mão e a leva a um determinado lugar diversas vezes, geralmente ela será capaz de ir lá sozinha, porque seu corpo aprende a direção. O Aikido funciona da mesma forma. Deixe o corpo aprender a se mover mesmo de olhos fechados. Se você para o processo no meio para explicar os detalhes, poderá estar atrasando o progresso.

Você quer dizer:  “deixar” que o corpo aprenda o movimento?

Quando eu era jovem, enfatizava receber ukemi. Você pode aprender o momento da técnica e do movimento recebendo ukemi. Então, quando eu era jovem, eu sentia e aprendia as técnicas sendo arremessado pelos meus colegas mais antigos. E, em minhas aulas deixo que o aluno passe a ensinar quando ele chega a um certo nível. Ao ensinar, você percebe coisas que não percebia antes. Este é um treinamento importante. Eu também aprendo ao ensinar. E, ainda tenho muitas coisas a aprender.

Todos têm alguma coisa que eu não tenho, alguma coisa que podemos aprender. Quando assisto a aula de um Sempai (alunos mais antigos). Ou, assisto a prática de outras pessoas e vejo algo de bom. Eu não hesito em passar isso para os meus alunos. Eu não me importo que digam que estou copiando os outros. Não é vergonha copiar uma coisa boa porque a atitude de aprender é sempre importante.

Se passo as coisas que aprendi para os alunos, isso volta para mim de uma forma diferente. É um circulo. É realmente interessante. Ao ensinar, às vezes vejo novas formas de ensinar. E, parece que a confiança cresce no círculo formado por mim e pelos alunos.

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