Shotokai Enciclopédia

“O Caminho Zen para as Artes Marciais.”

Escrito por TAISEN DESHIMARU
Tradução Jaqueline Sá Freire (Brazil Aikikai – Hikari Dojo – Rio de Janeiro)
Revisão Ricardo Martins

http://www.shotokai.com/ingles/filosofia/mondo2.html

Muitas pessoas praticam artes marciais na Europa, nos Estados Unidos e no Japão sem realmente estarem no caminho do “Budo” ou no caminho do “Zen”. E o sentimento geral é que os princípios e a filosofia do “Zen” não têm nada a ver com a prática das artes marciais como esportes.

Taisen Deshimaru: As pessoas que não querem seguir os ensinamentos do “Zen”, a verdadeira base do “Bushido”, não precisam fazer isso. Elas estão simplesmente usando as artes marciais como diversão; para elas, são esportes como quaisquer outros.
Mas, as pessoas que querem viver suas vidas em uma dimensão mais elevada precisam compreender.
Ninguém pode ser obrigado e ninguém pode ser criticado. Uns são como crianças brincando com carros de brinquedo, e os outros dirigem carros de verdade. Eu não tenho nada contra esportes; eles treinam o corpo e desenvolvem a energia e a resistência. Mas, o espírito de competição e a energia que cerca isso não é uma boa coisa, isso reflete uma visão distorcida da vida. A raiz das artes marciais não está aqui.

Os professores são parcialmente responsáveis por essa situação, eles treinam o corpo e ensinam as técnicas, mas não fazem nada pela consciência. E o resultado disso é que seus alunos lutam para vencer, como crianças brincando de guerra. Não existe sabedoria neste ponto de vista e ele é completamente inútil para a organização de suas vidas.

Qual é a utilidade de suas técnicas na vida diária de cada um deles?

Os esportes são apenas diversão e no final, devido ao espírito de competição, eles desgastam o corpo. É por isso que as artes marciais deveriam lutar para recapturar sua dimensão original. No espírito do “Zen” e do “Budo” a vida diária se torna a competição. Devem existir prêmios a cada momento – ao se levantar pela manhã, ao trabalhar, ao comer, ao ir para a cama. É este o local para a maestria sobre si mesmo.

“Campeonite” é uma doença mental?

Taisen Deshimaru: – Claro que sim! É uma visão estreita da vida! Não quero dizer que uma pessoa nunca deva ser um campeão. Porque não? É uma experiência como qualquer outra. Mas não se deve tornar isso uma obsessão. Também nas artes marciais, a pessoa deve ser “mushotoku”, sem qualquer objetivo ou desejo de obter lucro.

De onde vieram as artes marciais?

Taisen Deshimaru: A arte da espada, a lança, arco e flecha, ou simplesmente a luta com os punhos – elas são quase tão antigas quanto a própria humanidade, porque o ser humano sempre precisou se defender de ataques e caçar para alimentar a si e a sua tribo. Primeiro, a arma foi inventada – lança, pedra, machado, atiradeira, arco e flechas – e então, gradualmente, por tentativa e erro, as melhores técnicas evoluíram para cada arma. Lutando contra seus inimigos, as pessoas descobriram quais golpes matavam, quais golpes feriam, como bloqueá-los, como contra-atacar, e assim por diante. As armas em si foram aperfeiçoadas, as técnicas foram sistematizadas. E, o todo se tornou uma parte da arte da Guerra e da Caçada. Ambas incluindo outros elementos essenciais: o conhecimento do clima e da temperatura, habilidade de interpretar sinais da natureza (sons, rastros, marcas, cheiros, etc.), a compreensão do meio ambiente e da psicologia do adversário (ou da caça), intuição sobre o movimento certo.
Um bom guerreiro-caçador deve ser capaz de se confundir com o ambiente, se tornar parte dele, conhecê-lo intimamente e respeitá-lo.

Mas, retornando às artes marciais orientais, a técnica de luta sem armas começou a ser importante na época em que os monges viajantes eram frequentemente atacados e roubados, quando não eram mortos, por soldados e bandidos – porque os votos dos monges os impediam de usar armas. Uma forma de luta sem armas foi desenvolvida inicialmente na China, na época de “Bodhidharma”, e depois se dividiu em Karatê, Judô, Tai-Chi e etc…
E, assim estes monges puderam se defender em qualquer ocasião. Esta foi a fonte dos gestos precisos e eficientes do Karate; das sutis pegadas do Judô que utilizam a própria força do adversário; dos ataques lentos, flexíveis, felinos do Tai-Chi: que deram aos monges a capacidade de tirarem vantagem de meios naturais de defesa, adaptados em cada caso para a energia da pessoa. Naqueles tempos, as artes marciais “suaves” não eram divididas em categorias como atualmente, mas eram provavelmente uma coleção de movimentos, golpes, fintas e truques, passadas de um homem para outro no curso de suas jornadas, assim como eles trocavam suas poções e receitas – plantas, massagens especiais, etc…
Ou, suas técnicas de meditação (lembre-se que antes do Buda começar a praticar “zazen” sob sua árvore “bodhi”, ele recebeu instruções de muitos yoguis que encontrou em suas viagens). Eles também compartilharam as experiências que lhes ensinaram lições, morais ou de natureza prática, relevantes para suas vidas.
Os monges viajantes carregaram todos os seus conhecimentos da China para o Japão, aonde, se espalhando a partir da região de Okinawa, eles tiveram um sucesso espetacular. O Karatê e o Judô se tornaram mais populares lá, enquanto que o Tai-Chi permaneceu sendo especificamente Chinês.

O Tai-Chi ainda é praticado atualmente na China,diariamente, nas ruas e fábricas. Eu vi um filme mostrando multidões de pessoas fazendo gestos idênticos como um balé fascinante, em câmera lenta . . .
Taisen Dashimaru: – O Tai-chi costumava ser apenas para mulheres e crianças, pessoas velhas e fracas. É uma prática muito interessante porque ensina a forma correta de respiração (como em “zazen”), junto com o fortalecimento do corpo e a concentração da mente. Ele já foi chamado de “Zen em posição de pé”; mas depois de tudo o que foi dito e feito, é apenas uma dança, um tipo de ginástica sem o verdadeiro espírito do Zen.

http://www.shotokai.com/ingles/filosofia/mondo2.html
http://www.shotokai.com/ingles/filosofia/taisen.html
http://www.shotokai.com/index.html

For reproduction permission contact: infoshotokai@shotokai.com
Concepción Chile. © 1997-2005. All rights reserved unless otherwise stated.