Aikido Journal

Postado por Ellis Amdur em 27 de Fevereiro de 2004
Tradução – Jaqueline Sá Freire (Instituto Takemussu – Hikari Dojo – Rio de Janeiro)
Revisado por Ricardo Martins

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Em uma recente discussão na seção “fórum”, uma pessoa citou empolgada a sabedoria de Isoyama Sensei em relação ao “hakama”, dizendo que: -  “Até chegar a Shodan, os pés devem ser vistos. Após “Shodan”, não é preciso ver os pés.”  Com todo o respeito, só posso desejar que Isoyama Sensei não tenha dito isso, porque isso demonstra uma surpreendente falta de conhecimento da história do Japão.  O “hakama” é, essencialmente, uma calça de montaria. As roupas normais dos japoneses são bastante simples:  homens usam um “fundoshi” (um tipo de tanga) e kimono, mulheres usam apenas o kimono, sem nada além (ver nota ao final do texto).

Hakama

Hakama sendo colocado

Cavaleiros (homens, pois as mulheres raramente cavalgavam, e quando o fazem, apenas sentadas de lado) estariam mostrando “o que os faz homens” sem o “hakama”, que não deixa nada a mostra. Alem disso, apesar de  não ser problema para os camponeses, seria considerado inapropriado para um “bushi” mostrar seus genitais ou seu traseiro em qualquer situação, mesmo durante o treino.  Isso era ainda mais importante para mulheres que estivessem treinando artes marciais ou atléticas.

Existe um tipo de “hakama” formal em que a bainha cobre os pés. Sem ser um pesquisador, eu desconheço as razões para isso: – Dizia-se que isso restringia os movimentos, tornando mais difícil atacar o “daimyo” (senhor feudal) em seu palácio. Pode também ter sido causado pelo fato de que a nobreza se tornou decadente, e isso incluiu suas roupas. Um exemplo semelhante seria o dos sapatos absurdos com as pontas longas que foram populares no passado, na Europa. Neste ponto, é muito fácil fazer associações Freudianas.

Kisshomaru Ueshiba

Kisshomaru Ueshiba vestido à caráter

De qualquer forma, o “hakama” deveria ser prático. Com uma bainha muito longa, causaria embaraços com o excesso de tecido. Ainda pior, as ruas do Japão Medieval, como as da Europa, eram sujas. Com uma bainha chegando ao chão o “bushi” estaria levando esterco e outras sujeiras para dentro das mansões e palácios em que trabalhava. Assim, o “hakama” apropriado nunca deveria ser mais longo que a altura do tornozelo. Não apenas você deveria SEMPRE ver os pés, mas também os tornozelos e também talvez um pouco da canela.

De alguma forma, se tornou uma moda em certos círculos do Aikidô usar um longo “hakama” que cobre os pés. Olhando as velhas fotos de O-Sensei, você verá que o que ele usa é curto (e fora de moda?) como os shorts de basketball de John Stockton em uma era de roupas largas de estilo “hip-hop”. Acho estranho que alguém tão eminente como Isoyama Sensei aparentemente desconheça isso (e não esteja apenas brincando com algum outro instrutor mais jovem, que faz com que seus alunos usem “hakama” desde o primeiro dia), mas já encontrei aikidokas de todos os níveis, Japoneses e estrangeiros, que desconhecem suas raízes culturais.

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O´Sensei executando demonstração pública

Devo confessar que mesmo eu já fui assim tão “cego” (mas, agora posso ver). Quando cheguei a “shodan”, eu comprei, todo orgulhoso, sob encomenda, o “hakama” mais longo da história do “Suidobashi budoya” (não me lembro do nome da loja). Eu fui para a aula do Masuda Sensei, orgulhosamente me sentei em um largo “seiza”, na frente e no centro, para que ele me visse e me chamasse logo para a primeira técnica. Ele entra, diz: – Oh, um novo shodan! E, alegremente acena para mim. Como um tigre, eu saltei na direção dele, e com meu dedão prendendo na bainha do “hakama”, voei horizontalmente e caí de cara bem aos pés dele. Ele e os outros 80 (oitenta) alunos na sala de aula estavam rindo tanto que chegavam a chorar. E, Masuda me dispensou sem nem um arremesso, ainda sem conseguir falar de tanto que ria. Então, verdadeiramente, com todo o meu respeito a Isoyama Sensei, mesmo após chegar a “shodan”, “os pés devem ser vistos.”

Nota da Tradutora: No Livro “Kimono”, sobre a evolução da vestimenta no Japão, Lisa Dalby conta que ocorreu (em 1932) um incêndio em uma loja japonesa. Várias senhoras saltaram para fugir das chamas e ficaram embaraçadas por se verem “descobertas”, e 14 (quatorze) outras preferiram morrer queimadas a passar por este vexame. Só a partir daí foi incentivado o uso de roupas íntimas por mulheres.

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