Aikido Journal

Escrito por Moritaka Ueshiba
Traduzido por Alberto Silveira Ramos
Revisado por Ricardo Martins

Aiki News #42 (Novembro 1981)
http://www.aikidojournal.com/article?articleID=676&lang=pt

Quando visitei “dojos” (locais de treino físico e espiritual) de “bujutsu” (artes marciais) em vários locais, reparei que poucos tinham no “dojo” um altar para a “divindade”. Isto é especialmente verdadeiro nos “dojos” em escolas. Parece que as pessoas modernas pensam que podem dominar uma arte marcial se, simplesmente, moverem apenas o corpo. Quando olho para estas pessoas que estão sendo treinadas com esta atitude, e fazem-no com bastante suor, sinto uma espécie de inexprimível pena, associada a uma grande responsabilidade. Um “dojo” é, conforme podemos ver pelos caracteres com que a palavra é escrita, um local de treino (jo) para a “via” (do ou michi). Nos dias atuais, porém, “dojo” está mais ajustado ao termo “fábrica”. Como uma analogia: apesar dos grandes avanços nas ciências e enormes progressos na fabricação de ligas e na têmpera de metais, as espadas modernas não podem ser comparadas com as famosas espadas do passado. O acordo entre a ciência moderna e as antigas crenças Xintoístas é a grande passagem; esse é o nosso objetivo. Gostaria de alcançar a grande essência do “budo” através deste espírito de harmonia entre o novo e o velho.

As pessoas são cortadas primeiro, não pela lâmina da espada, mas pela “sakki”, o desejo de matar pela sede de sangue, que é impulsionado para fora da cabeça do atacante, antes da lâmina se mover. O famoso professor do terceiro Shogun Tokugawa, Iemitsu, Yaguy Tajima no Kami estava um dia a passear num jardim, seguido por um servente que foi de repente assolado pelo pensamento: “Se eu o atacasse agora, mesmo um grande espadachim como meu amo, seria incapaz de resistir…”. Nesse mesmo instante, como se tomado por uma grande ansiedade, Tajima no Kami voltou precipitadamente aos seus aposentos e disse ao seu servo: “Agora mesmo, enquanto passeava no jardim, senti um feroz ataque de “sakki” contra mim. Mas, ninguém, exceto tu, estava presente. O que eu temo é a “sakki” quando não há nenhum inimigo aparente.”

A essência de empreender uma guerra é antever o plano de batalha do inimigo. Tal como a frota da Rússia Czarista do Báltico, que estava a aproximar-se das nossas águas nacionais; as dificuldades enfrentadas pelo Almirante Togo e pelos seus homens, incluindo Shimamura e Akiyama, foram maiores do que as palavras podem exprimir. Eles foram quase impossibilitados de comer ou dormir. O seu único pensamento foi suplicar o “kami” para preservar esta nação imperial. Uma noite, o Capitão Akiyama teve uma visão da frota do Báltico numa fila única, dirigindo-se para Norte nos estreitos de Tsushima, entre a parte Oeste do Japão e a península da Coreia. Quando, mais tarde, relatou o seu sonho ao seu oficial de comando, o Almirante Togo compreendeu que a frota inimiga teria de passar por esse caminho e foi assim que o plano de batalha da nossa nação foi decidido (por este sonho). Qualquer pessoa que alguma vez tenha tido uma experiência com inspiração, irá prontamente admitir que essas coisas acontecem.

Como este outro exemplo: após ter atingido um certo nível no treino da “via da espada”, pode sentir a intenção do seu inimigo para cortar, antes da lâmina iniciar o seu movimento de corte. Eu próprio tive a experiência de ver uma “bala em pensamento” de cor branca e com uma polegada, e de ouvir o seu som sibilante enquanto voava para mim, antes da verdadeira bala ser disparada. É uma experiência que desafia completamente o tempo e o espaço. No budo genuíno, no entanto, simplesmente não basta antever o plano do inimigo. Mas equipar o teu Eu interior com o poder de mover o inimigo de acordo com a tua própria vontade… é essa a verdadeira Via dos Deuses (kami no michi). Isto é apenas a ponta do iceberg da experiência inpiracional encontrada relativamente ao “budo”. Se os praticantes de artes marciais dos nossos dias percebessem que deviam honrar o “kami” e treinar na unicidade do espírito e do corpo, ficariam espantados com o seu próprio progresso.

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