Context Institute

Escrito por: Terry Dobson.
Traduzido por: Jaqueline Sá Freire – Instituto Takemussu Hikari Dojo – Rio de Janeiro.
Revisado por: Ricardo Martins
Artigo da The Foundations Of Peace (IC#4)
Outono de 1983, Pagina 35
Copyright (c)1983, 1997 by Context Institute

http://www.context.org/ICLIB/IC04/Dobson.htm

A história a seguir dá mais uma perspectiva adicional a respeito do papel do treinamento das artes marciais. É uma reimpressão do PHP, publicado mensalmente pelo Instituto Internacional PHP. Endereço: No. 32 Mori Bldg. 6th Floor, 3-4-30 Shibakoen, Minatoku, Tokyo 105, Japão. U$ 18,oo por ano.

Nota da Tradutora: Eu lí esse artigo na Aikido Magazine n. 100, com o nome de “A Kind Word Turneth Away Wrath”, e vi várias referências a esse artigo como sendo um dos mais importantes do Aikidô. Como ele é antigo (de 1980) e famoso, deve haver mais traduções em português, mas não achei nenhuma. Então, eu o traduzi para compartilhar com os amigos.

O trem sacudia e fazia barulhos ao passar pelos subúrbios de Tókio em uma modorrenta tarde de primavera. Nosso carro estava bastante vazio – algumas donas de casa com suas crianças, pessoas mais velhas que iam fazer compras. Eu olhava desligado as casas antigas as cercas empoeiradas.

Em uma estação, as portas se abriram, e subitamente a calma da tarde foi rompida por um homem que gritava violentamente pragas incoerentes. O homem entrou em nosso carro. Ele estava usando roupas de trabalho, era grande, estava bêbado e sujo. Gritando, ele empurrou uma mulher que estava segurando um bebê. O empurrão a jogou no colo de um casal de idosos. Por um milagre, o bebê não se machucou.

O casal apavorado saltou do banco e fugiu para o outro canto do carro. O trabalhador tentou chutar o traseiro da velha senhora, mas errou, enquanto ela escapava para a segurança. Isso deixou o bêbado tão enraivecido que ele segurou a haste de metal no centro do vagão e tentou arrancá-la. Eu pude ver que uma de suas mãos estava cortada e sangrava. O trem seguia em frente, e os passageiros estavam congelados de medo. Eu me levantei.

Eu era jovem, há uns vinte anos atrás, e estava em boa forma. Eu estava treinando Aikido com firmeza quase oito horas por dia nos últimos três anos. Eu adorava arremessar e imobilizar. O problema era que minhas habilidades marciais não tinham sido testadas em um combate verdadeiro. Como alunos de Aikidô, não tínhamos a permissão para brigar.

“Aikido,” meu professor vivia repetindo, “é a arte da reconciliação. Quem está com a mente voltada para a briga quebra sua conexão com o universo. Se você tenta dominar as pessoas, você já perdeu. Estudamos como resolver o conflito, e não como iniciá-lo.”

Eu escutava suas palavras e me esforçava. Eu chegava mesmo a ir pelo outro lado da rua para evitar os “chimpira”, os arruaceiros que se aglomeravam perto das estações de trem. Minha tolerância me enchia de orgulho. Eu me sentia sério e um homem de bem. Mas, no meu coração, eu esperava por uma verdadeira e legítima oportunidade de salvar um inocente destruindo um culpado.

É agora! Eu disse para mim mesmo ao me levantar. As pessoas estão em perigo. Se eu não agir rapidamente, provavelmente alguém vai se machucar.

Ao me ver me levantando, o bêbado percebeu uma oportunidade de direcionar sua raiva. “Aha!” ele gritou. “Um estrangeiro! Você precisa de uma lição de boas maneiras japonesas!”

Eu segurava de leve o apoio em cima da minha cabeça, e dei a ele um olhar de desaprovação e desdém. Eu planejava “destrinchá-lo”, mas ele deveria fazer o primeiro movimento. Eu queria enlouquecê-lo, então fiz um bico e mandei um beijinho insolente para ele. “Tudo bem!” ele gritou. “Você vai receber uma lição!” Ele começou a se ajeitar para pular em cima de mim.

Mas, um segundo antes de ele se mover, alguém gritou “Ei!” Foi ensurdecedor. Eu me lembro do tom estranhamente feliz desse grito – como se você e seu amigo procurassem muito por uma coisa e de repente a encontrassem. “Ei!”

Eu me virei para a minha esquerda, o bêbado girou para a direita. Nós dois olhamos para um pequeno velho japonês. Ele devia ter bem mais de setenta anos, este pequeno cavalheiro, sentado lá imaculado em seu kimono. Ele nem olhou para mim, mas direcionou seu olhar firmemente para o trabalhador, como se tivesse o segredo mais importante, mais interessante, para dividir.

“Venha aqui,” disse o homem em linguagem informal, acenando para o bêbado. “Venha aqui conversar comigo.” Ele balançou levemente a mão.

O grande homem obedeceu, como se estivesse preso. Ele firmou os pés beligerantemente em frente ao velho senhor, e gritou acima do barulho do trem, “Porque diabos eu vou falar com você?” O bêbado agora estava de costas para mim. Se seu punho se movesse um só milímetro, eu acabaria com ele.

O velho homem continuava olhando fixamente o trabalhador. “O que você andou bebendo?” ele perguntou, com os olhos brilhando de interesse. “Eu estava bebendo sake,” gritou o trabalhador, “e isso não é da sua conta!” um bocado de cuspe voou sobre o velho senhor.

“Oh, isso é ótimo,” disse o velho homem, “realmente ótimo! Sabe, eu também adoro sake. Todas as noites, eu e minha esposa (sabe, ela agora tem 76 anos) esquentamos uma garrafa de sake e levamos para o jardim, e sentamos em um banco de madeira. Nós olhamos o sol se por, e vemos como está indo nossa árvore de caqui. Meu bisavô plantou aquela árvore, e nós preocupamos se ela vai se recuperar daquelas tempestades de neve do inverno passado. Mas, nossa árvore está indo bem, especialmente se você pensar que o solo é muito ruim. É muito bom quando pegamos nosso “sake” e vamos aproveitar a tarde, mesmo quando chove!” Ele olhou para o trabalhador, com os olhos brilhando.

Enquanto tentava acompanhar as palavras do cavalheiro, o rosto do bêbado começou a se suavizar. Seus punhos aos poucos se afrouxaram “Sim”, ele disse “eu também gosto de caquizeiros.” sua voz enfraqueceu.

“Sim,” disse o velho homem, sorrindo. “E tenho certeza que você tem uma maravilhosa esposa.”

“Não,” respondeu o trabalhador. “Minha esposa morreu.” Lentamente, balançando com o movimento do trem, o homem grande começou a chorar. “Eu não tenho esposa, eu não tenho casa, eu não tenho emprego, eu tenho vergonha de mim mesmo!” Lágrimas escorriam por seu rosto; um espasmo de desespero balançou seu corpo.

Agora era a minha vez. Lá, em pé, em minha inocência da juventude, com minha atitude de “fazer que esse mundo seja um lugar seguro para a democracia”, de repente me senti mais sujo do que ele estava.

Então, o trem chegou no meu ponto. Quando as portas se abriram, eu pude ouvir o velho senhor falando de forma simpática. “Que coisa,” ele disse. “Isso é muito duro, mesmo. Sente-se aqui e me conte sua história.”

Eu virei minha cabeça para um último olhar. O trabalhador estava estatelado no banco, com a cabeça no colo do velho senhor. O homem estava passando a mão suavemente sobre o cabelo sujo e embaraçado.

Quando o trem partiu. Eu me sentei em um banco. O que eu queria fazer com os músculos foi obtido com palavras gentis. Eu tinha visto o Aikidô sendo usado em combate, e sua essência era o amor. Eu teria que praticar a arte com um novo espírito. E levaria muito temo até que eu pudesse falar sobre resolução de conflitos.

http://www.context.org/ICLIB/IC04/Dobson.htm

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