Aikido Journal

Aikido Journal #108 (1996)
http://www.aikidojournal.com/article?articleID=31&lang=pt

Escrito por Stanley Pranin
Traduzido por Nelson Wagner
Revisado por Ricardo Martins

A discussão sobre a inclusão ou não do treinamento com armas dentro da prática do Aikidô é bem grande e com freqüência temos oferecido no Aikido Journal um espaço para quem apóia ou não sua existência. Tenho observado e também participado destas discussões e neste momento desejo propor alguns pontos os quais eu não recordo de serem mencionados anteriormente.

Como primeiro ponto, penso que um bom começo seria revisar o que Morihei Ueshiba mencionou a respeito das armas. Sem necessidade de cair em uma grande argumentação histórica a respeito, vou ressaltar alguns pontos. Como temos documentado de forma exaustiva nos últimos dez anos, a maior influência técnica no Aikidô é o Daito-ryu aikijujutsu. O mestre de Ueshiba, Sokaku Takeda, era um grande esgrimista e um “expert” no manejo de armas que passou muitos de seus anos de formação estudando uma grande variedade de armas. Takeda tomou o Jujutsu como fundamento essencial na instrução de suas técnicas, especialmente nos anos nos quais portar espadas estava proibido por lei. O “bujutsu” de Takeda era inclusivo por natureza e de nenhuma maneira se pode considerar limitado exclusivamente às técnicas de Jujutsu. As técnicas do Daito Ryu estão concebidas sobre os princípios da espada.

Outro fato: de 1942 pelo menos até o final dos anos 50, Morihei Ueshiba passou uma grande quantidade de tempo em seu “dojo” campestre de Iwama experimentando com o “Aiki Ken” e o “Aiki Jo”. Um dos seus principais alunos desta época , Morihiro Saito foi uma testemunha de primeira mão neste processo e o corpo que alberga o conhecimento que surgiu deste esforço nesta parte da vida pode ser visto hoje em dia no Aikidô de Saito Sensei . Uma das críticas contra esta afirmação diz algo assim “O-Sensei simplemente experimentava com as armas na realidade nunca desenvolveu este aspecto do treinamento como uma disciplina completa como seu taijitsu ou as técnicas sem armas”. O problema deste ponto de vista é que o período referido é de cerca de 20 anos. Isto, seria suficiente para um artista marcial qualificado como Ueshiba para integrar este conhecimento em seu treinamento.

Recorde, também, que em 1937 o Fundador tomou ações para ingressar nas artes clássicas baseadas em armas como o Kashima Shinto-ryu, em seu dojo na “Kobukan”. Inclusive, se encontra seu juramento de sangue nos arquivos desta escola.

Posteriormente, ressaltarei que muitos dos termos técnicos do Aikidô se derivam do “kenjutsu”. Palavras como “tegatana”, “shomenuchi”, “yokomenuchi”, e “shihonage” claramente refletem um conhecimento da esgrima. Assim mesmo, uma grande quantidade das técnicas que caracterizam o Aikidô, como “iriminage”, se baseiam em movimentos de entradas claras com a espada. De fato o conceito de “irimi” ou entrar provêem do manejo do sabre. Para ser claro, o estudo e a prática de armas foi una paixão de muitos anos do fundador. Aqueles que sugerirem o contrário são ignorantes da historia do Aikidô ou tem algum outro interesse para suas afirmações.

De toda forma, é um fato histórico que o fundador do Aikidô proibiu a prática do “ken” e do “jo” no Aikikai Hombu Dojo com exceção das aulas do Saito Sensei.

Mais que um fator revelador, poderei perguntar me: Deveria ser surpreendente que o Hombu Dojo de hoje tem afirmado publicamente – me refiro as afirmações publicadas do “Dojo-cho” Moriteru Ueshiba e o 8º dan Masatake Fujita – nas quais se diz que o treinamento com armas não é parte do Aikidô?.

A resposta à pergunta sobre se o Aikidô inclui ou não o treinamento de armas depende da definição da autoridade a quem você consulte. Não existe um acordo universalmente aceito sobre o que o Aikidô é técnica ou filosoficamente. Entretanto, o praticante médio observa a seu instrutor imediato como a autoridade final com respeito à arte. Inclusive, uma organização não pode impor seu ponto de vista no conteúdo e nível de treinamento de um dojo a não ser que se adote um rígido esquema de regulamento. Esta aproximação inibe de maneira séria o crescimento e influencia do grupo como já se demonstraram várias vezes.

Como exemplo, dentro da organização do Aikikai Hombu – cuja posição oficial, como vimos, exclui o treinamento de armas – professores de renome como Shoji Nishio, Nobuyoshi Tamura, Kazuo Chiba, e Mitsunari Kanai entre muitos outros, incorporam iaido em seu currículo. Nenhuma ação foi tomada para prevenir lhes de fazer isto. Da minha opinião, o debate se concentra em um elemento semântico. No haverá uma resposta satisfatória para a pergunta que relaciona Aikidô e armas que convença todo mundo.

Todas as argumentações no mundo acerca das virtudes e vícios neste tipo de treinamento, não mudaram este fator. Aqueles em que seus professores promovem o treinamento, ou quem, de maneira independente chega a concluir que as armas são um complemento importante ao treinamento no “taijutsu”, procederão de acordo com suas convicções. Aqueles que foram persuadidos sobre o perigo e como é inadequado frente ao progresso no taijutsu, rechaçaram as armas e herdaram um grupo de prejuízos que lhes servirão para justificar suas posições.

É esta a última palavra sobre isto? Duvido, porém espero haver contribuído com umas novas perspectivas no que diz respeito ao debate.

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