Ricardo Martins 3º Dan (Aikido Tradicional)

CREF 00482-P/RJ, Grau Prêto em MuayThai e KickBoxing, Treinador de Boxe, CrossFit – L1 Trainer, Coach especializado em Treinamento Físico Funcional e Pilates

Shudokan Martial Arts Association

Escrito por Brett Denison
Tradução – Jaqueline Sá Freire (Instituto Takemussu – Hikari Dojo – Rio de Janeiro)
Revisado por Ricardo Martins

http://smaa-hq.com/articles?articleid=8

Publicado pela primeira vêz na edição do verão de 2002 da SMAA Newsletter.

[Após a revisão de um artigo que tinha escrito antes, ("O que significa uma Faixa Preta?"),um de meus colegas mais antigos da SMAA a quem eu respeito muito me apresentou diversas questões difíceis e provocantes. O artigo a seguir é minha tentativa de responder a essas questões, e possivelmente trazer alguns esclarecimentos a outras dúvidas aos demais.]

O simples treinamento do corpo através de arremessos e imobilizações repetitivas também será capaz de treinar a mente para se manter imóvel sob pressão?
O fato de simplesmente praticar exercícios físicos difíceis poderá desenvolver nosso caráter?
O que separa o treinamento do “budo” do treinamento atlético sério, e o que o diferencia de um mero esporte?

Na superfície, estas parecem ser questões muito simples, mas na verdade não são. A resposta à primeira questão é “Sim,” e “Não”. O treinamento físico duro é necessário para o desenvolvimento de um estado mental apropriado no sentido psicológico e espiritual, MAS, este treinamento físico severo deve ser estruturado e encarado com uma atitude correta, com intensidade, e objetivos tanto para o “tori” (quem faz a técnica) quanto para o “uke” (quem recebe a técnica).

A atitude e a intensidade precisam conter a “riai” (integridade do combate). Os ataques devem ser fortes e ter uma intenção focalizada. Se o “tori” não desvia o ataque suficientemente, ele ou ela deve sentir o erro ao receber um golpe.

O “Uke” não deve cooperar excessivamente com o “tori” (nem o “uke” deve resistir em excesso… pelo menos não em todas as situações). O “uke” precisa que o “tori” aplique ou execute técnicas de maneira eficiente, fazendo com que o “uke” caia. O “uke” não deve antecipar uma técnica e se jogar (isso pode ser perigoso se o “uke” antecipar uma técnica errada). Outros métodos de treinar a mente e desenvolver a integridade do combate são:

* Agarramentos e estrangulamentos devem ser aplicados com pressão (dentro dos limites de segurança) para invocarem uma resposta realística à ameaça.
* Golpes e chutes devem ser executados com foco e intenção. E, não contidos. A idéia é que se você não se mover, será atingido. Isso traz os seguintes benefícios: você aprende como é ser atingido, e se fosse ficar com o nariz machucado ou o lábio cortado, isso será tratado e você poderá treinar mais. Ninguém vai parar um ataque na rua porque você estiver com o lábio cortado.
* Os instrutores devem ensinar como atacar, considerando a forma como os ataques podem ser feitos na rua.
* Você também pode gritar durante um ataque, simulando um atacante que grita. Se isso acontecer na rua, você não vai “congelar”.

A presença da integridade do combate desenvolve o “fudoshin”, ou a “mente que não se move”. “Fudoshin” é o principio mais importante do “budo” e se refere a um estado mental que é impenetrável e imóvel. Neste caso, “imóvel” requer algumas explicações, pois é usado no contexto filosófico japonês e assim tem um sentido mais elevado do que se esperaria ao associar ao significado da palavra em outra língua.

“Fudoshin” não indica um estado mental inflexível. Mas, aponta sim  para uma condição mental que não é facilmente transtornada por pensamentos internos ou por fatores externos. “Esta mente que permanece não agitada e calma é imperturbável, não apegada e livre… É a mente máxima do mestre, adquirida apenas através de rigoroso treinamento, e igualmente rigorosa investigação da mente e pelo forjar do espírito (seishin tanren, em japonês) através da confrontação e vitória sobre nossos próprios medos e fraquezas” (Fabian).

“Fudoshin” é diretamente relacionado com outro conceito Japonês conhecido como “zanshin”, ou mente continua. O “Zanshin” se refere a um estado de constante e contínua atenção ou estado de alerta. O “Zanshin” se aplica a sua atenção ao mundo à sua volta. Você percebe as pessoas à sua volta, como elas se movem, como ficam de pé, o que há em seus olhos, porque você precisa estar preparado para interagir com elas. Você está presente neste momento. Uma grande parte do “reigi”, ou “métodos de respeito” no budo, particularmente as reverências (de pé e na posição sentada) e outras formas de etiqueta foram criadas com o “zanshin” em mente.

Em um contexto marcial, imobilidade e continuidade se referem a um estado de alerta mental em que a mente não está fixada em coisa alguma. Como a mente é receptiva e atenta, mesmo que não fixada conscientemente em alguma coisa em particular, não existem pontos fracos mentais ou “suki” (brechas). Os conceitos espirituais japoneses podem ser um “quebra-cabeças” e normalmente são conectados como parte de vários conceitos. Por isso, explicarei mais detalhadamente.

Se eu tenho tres objetos na minha frente e enfoco minha atenção em só um, minha concentração estará afastada dos outros dois. E assim, em relação aos outros dois objetos, eu criei um “suki”, ou uma ausência de foco. Se qualquer um destes objetos fosse um atacante, eu estaria completamente vulnerável. Mas, se você disser Ok… Tudo o que temos que fazer é focalizar todos eles, você estaria parcialmente certo. Mas, como tudo o que é japonês, não é tão simples. O segredo escondido é que devemos focalizar todos eles sem focalizar nenhum deles. Às vezes isso é chamado de “mushin”, ou “não mente”. Este conceito, que sustenta o do “fudoshin”, pode ser difícil de ser compreendido por ocidentais. A “não mente” se refere a um foco que é mais intuitivo que consciente. Isso significa confiar em seus instintos mais do que se empenhar em um processo consciente de pensamento. Os ocidentais podem chamar isso de “estar na área”. Os japoneses podem chamar isso de “estar no momento presente”.

No “budo”, criar este estado de confiança intuitiva e maturidade interior requer muitos anos de “keiko” (prática), em alguns casos a prática de exercícios de respiração meditativa (kokyu ho) e disciplina austera física/espiritual “shugyo”. Todos estes elementos, que são parte do “budo”, lentamente afastam a mente do diálogo mental interno e das censuras (de análise e justificação) e começam a permitir a mente que confie em seus sinais intuitivos ou em sua natureza superior. Em “mushin”, a mente deixa de ser facilmente perturbada ou reativa em excesso. Ela é “fudo” (imóvel) e não são criados “suki” (brechas) ou nenhuma quebra de foco acontece. Este estado é muito claro ao se observar um experiente “budoka” praticando um “kata”. Apesar de estar totalmente atento à forma, ele não opera a partir de um processo consciente de pensamento. O “kata” foi praticado milhares de vezes e o praticante desenvolveu uma confiança natural em sua habilidade. De certa forma, não há nada para se pensar. Talvez seja um tanto como o slogan da Nike: “Just Do It” (apenas faça).

Em resumo, a mente, não estando presa a coisa nenhuma, é forte, concentrada e receptiva a todas as coisas. Certamente “Fudoshin” não é reservado somente para as artes marciais. Pelo contrário, esta confiança e calma intuitivas podem ser usadas antes e durante uma reunião importante, em uma entrevista, uma prova, ou em qualquer circunstância em se seja necessária calma e um foco intensificado. Com uma prática consistente e disciplinada, o “fudoshin” pode se tornar um estado mental natural, confortável e produtivo.

Referências:
Fabian, S., (2001). “Fudoshin and Its Continuing Relevance.” Furyu the Budo Journal, número 9, Hawaii: Tengu Press.

Sobre o Autor:
Brett Denison Sensei é “sandan” na divisão SMAA goshin-jutsu, com interesse antigo pelos sistemas de jujutsu Japoneses. Seus interesses também incluem o estudo da língua e da arte do Japão. Um estudante ávido de “shodo”, caligrafia japonesa, ele é membro do Kampo Ryu, uma conhecida escola de shodo com base no Japão. Denison Sensei vive no Colorado, e contribui com freqüência para a SMAA Newsletter

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    Frase do Dia:

    Está se sentindo desorientado (seu "aiki" não está rolando), não sabe o caminho (DO) que deve seguir, tem problemas existenciais, precisa de aconselhamento. Percebe que uma "intervenção", no seu caso, é necessária porque já identifica problemas somáticos, psíquicos ou psicossomáticos.
    Não procure uma arte marcial, yoga ou atividade física. Nenhum "sensei", nenhum "shihan" por mais "graduado", experiente, maduro e inteligente que esta "divindade" seja vai te ajudar. Filiações não funcionarão, tampouco... Não perca seu tempo com guru, sensei, shidoin, shihan, Krus, do, jutsu etc... Você precisa de um profissional competente e devidamente habilitado para te ajudar no restabelecimento de seu bem-estar e de sua saúde.

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